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- Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
- Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
- Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
- Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
- E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
- A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
- Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
- Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
- Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
- Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
- Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
- Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
- Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
- Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.
- Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
- Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
- Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
- Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
- Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
- Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
- Seja o que for, era melhor não ter nascido,
- Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
- A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
- A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
- Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
- E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
- Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
- E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
- Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
- Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
- É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
- Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
- Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
- Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
- Álvaro de Campos - Passagem das Horas